Por que não falar da cidade? A beleza do mar e o cheiro do mato não
podem ofuscar a sutil graça da cidade. Os arranha-céus não são
como as árvores monstruosas que nos surpreendem no passeio pela
floresta, porém, são igualmente assustadores com suas linhas
milimetricamente calculadas e a exatidão das alturas e larguras. É
um enorme monstro de cimento. Ah, o cimento! Nosso amigo de mais
afinidade neste recinto construído e chamado de cidade. Cimento! Que
faz o trem mover e o prédio levantar. O que há de tão belo em não
poder ver as estrelas? Simples, poder enxergar o brilho das luzes das
casas que transformam o morro em uma imensa árvore de natal.
E os sinais de transito mudando de cor, fazendo a dança de carros
e pedestres, em perfeita harmonia e desespero. Esses sons que entram
pelos meus ouvidos, que são tão poucos – só dois – para
capitar tanta mensagem auditiva. Ouço buzinas, a bomba enchendo o
tanque do carro, alguém gritando “ladrão”, passos apressados.
Vejo camas improvisadas. Que linda é a criatividade daqueles que não
têm o que ter, porém, precisam continuar vivendo. O comércio de
algo novo, o chinelo remendado, o copo de moedas, aquele canto do
lado da loja que virou quarto de hotel, ou vulgarmente chamado de
“lugar para passar a noite”.
Os “bom dia” dos vizinhos, o sorriso da criança que acabou de
ganhar um picolé. Um ônibus que não parou quando aquele moço fez
sinal, e o moço pôs-se a fazer outro sinal. A chave que caiu do
bolso da menina, mas ela andava muito rápido para ser avisada. O ar
da manhã misturado com os diversos perfumes da cidade. Mas aquela de
verdade, com direito a valão e perfumaria convivendo em perfeita
harmonia.

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