quarta-feira, 20 de maio de 2015

Queria ser citado

Uma das coisas mais empolgantes que deve haver é ser citado. Não digo uma citação torpe e fútil, algo qualquer que tenhamos dito no meio da rua. Não, isso não. Falo de uma citação sincera, de uma frase, por nós escrita, repetida por uma multidão ou simplesmente por um louco desconhecido. A simples loucura de um homem ou uma mulher qualquer estar por aí levando suas palavras é algo muito excitante e que faria qualquer escritor especialmente feliz.

Por hora, são poucas as minhas frases que se podem ser citadas. Não sou um frasista ou um poeta de haicais. Ser cronista tem dessas coisas: às vezes, o que dizemos é o óbvio, o claro, o patético. Ora para que citar o óbvio? Se é para dizer o óbvio, que seja ao menos original. Ninguém quer citar o óbvio. Não se vê pelos cantos dizer: “‘Não tenho ambições nem desejos’ como diria Pessoa” ou “Já dizia Cecília Meireles ‘Minhas mãos ainda estão molhadas’”. O óbvio não é repetido, não é reproduzido, não é reeditado. É óbvio.

Sendo assim, me faltam palavras mais poéticas, com um sentido mais rebuscado, com uma certa melodia pincelada e uma pitada de melancolia. Para ser citado, ainda falta remodelar meus versos e fazê-los em ordem invertida. Sucumbir artigos, quem sabe? Talvez rimar durante prosa pra que seja, a citação que este autor almeja. Fazer sucesso não deve de ser tão difícil.

Para que minhas palavras façam eco, talvez precise gritá-las no banheiro, desligar o chuveiro, acender a luz e proferir Camões em ordem inversa. Para que minhas palavras façam eco, talvez precise gritá-las uma caverna, numa taberna, no planalto, na chuva. Tudo fica mais bonito de se ouvir na chuva. Até o óbvio? Até o óbvio. Dizer eu te amo a quem se ama fica mais bonito debaixo da chuva. E se for óbvio, a beleza continua lá, molhada.

Talvez eu seja somente um chato. Sim, um chato. Estou aqui querendo ser citado. Querendo que me leiam e me repitam por aí. Devo mesmo ser assim chato. Quem me lê não deve me considerar para ser citado. E não me citam porque eu sou chato.


Pois bem, já dizia Millôr Fernandes: “Chato... Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele.”


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